Rodrigo Zeferino

O grande vizinho

De 19 de março a 18 de maio de 2020

Fptp da montagem da exposição
Foto montagem da exposição
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TEXTO CURATORIAL DA EXPOSIÇÃO O GRANDE VIZINHO

dE 19 DE MARÇO A 18 DE MAIO DE 2019

Zona Mineral

Pedro David – texto e curadoria

 

 

Em 1951, Carlos Drummond de Andrade, publica o livro Claro Enigma. Em um de seus poemas mais reconhecidos, A Máquina do Mundo, descreve, em forma de delírio de um caminhante vespertino, a aparição de uma enorme instituição, quase viva, que parece querer mostrar-se capaz de trazer à humanidade toda a resolução sobre seus anseios, recursos, e riquezas – materiais. Ao alter ego caminhante, que não por acaso descreve a estrada como “pedregosa”, paira a ameaça, ou apenas uma sugestão para que aceite o mundo como vem sendo construído. Tudo é metáfora. Linguagem sofisticada para falar da vida.

 

As imagens que Rodrigo Zeferino apresenta, em sua nova série de fotografias, nos colocam de frente para a Zona, centro do limitado universo em que adentramos para tentar entender as motivações do artista que converge sua atenção para onde seus vizinhos parecem não enxergar nada além de seu sustento.

O grande caldeirão de sonhos minerais que alimentam seu mundo quadrilátero.

 

Uma gigantesca máquina, iluminada, digere em moto perpétuo todo o minério que vem carregado por aquele trem-monstro, de cinco locomotivas – o trem maior do mundo, tomem nota *. Sua luz, seus sons, e vapores podem ser sentidos por toda a parte. Qual será o limite entre a máquina e seu mundo?

 

O vizinho Rodrigo, natural da cidade de Ipatinga, que circunda o enérgico colosso iluminado, retoma a técnica da fotografia noturna ­para interpretar, inicialmente, a complexa relação entre vizinhos.  Os pequenos e o grande, que sustenta e comanda toda a comunidade que surge a partir de seu próprio advento. E o acompanha à maneira que é acompanhado por suas atividades.

 

Como o Stalker, personagem central da novela dos irmãos Strugatsky, magistralmente adaptada para o cinema em 1974 pelo diretor russo Andrei Tarkovsky, o artista circunda a Zona, uma área de exclusão, que teria sido o ponto de contato de um meteorito, ou de “seres do abismo cósmico”. Ao executar tarefas específicas, interpreta o entorno, tenta entender como seus vizinhos relacionam-se com a lendária máquina. Segue rigorosamente sua investigação ao explorar minuciosamente as possibilidades de registro desta relação. Cumpre os requisitos próprios de seu processo sem profanar a tangente da Zona, regra sine qua non para a criação da série O Grande Vizinho.

 

Mas como seu destino parece ser gauche, não poderia ater-se para sempre em sua própria regra. Ao contrário do personagem de Drummond, que resiste à tentação, e prefere não enfrentar a treva espessa que emana de seu delírio *, Rodrigo aceita o magnetismo da máquina, não sem receio de reimprimir um clichê, ou passar a serviçal.

Depois de também relutar em responder a tal apelo assim maravilhoso *, abandona a órbita inicial. Conscientemente deixa-se seduzir pela força centrípeta que emana da Zona e penetra o mundo paralelo da máquina. Lá de dentro não perde a esperança mais ínfima – esse anelo de ver desvanecida a treva espessa que entre os raios do sol inda se filtra *. E na presença de uma indelével e infindável pulsação, pode envolver-se em sua luz, sua fumaça, seu produto, e adentrar “o quarto”, que segundo o Stalker, atende aos anseios de quem o alcança.

Mas a Zona só realiza os desejos mais profundos e inconscientes. E o mundo é regido pelas leis do ferro fundido.

Podemos imaginar qual a quantidade necessária de matéria mineral para que este gigante se mantenha acordado noite e dia? Qual seria o papel destes pequenos habitantes periféricos nesta atividade de tantas toneladas por hora? Perguntas aparentemente simples que lançadas à luz que emana dos registros desta existência, parecem um convite para o espectador ativo refletir sobre nossa sina ancestral de provedora de matéria prima para o mundo real. E sobre os sucessivos golpes por que passamos aqui na porção sul do planeta.

 

* com as palavras do próprio poeta, insubstituíveis

Formação

.Comunicação e Artes . Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo

Horizonte

 

Exposições Individuais

2018

.O Grande Vizinho – Galeria Hideo Kobayahsi, Centro Cultural Usiminas, Ipatinga/MG

.O Grande Vizinho – Galeria Thi Rorhman, Tiradentes (Festival Foto em Pauta)

2012

.Terra Cortada - Zipper Galeria, São Paulo

2007

.Revelações - Palácio das Artes, Belo Horizonte

.Revelações - BDMG Cultural, Belo Horizonte

 

Exposições Coletivas:

 

2016

.Cantata, Um Recorte da Coleção Sérgio Carvalho, Centro Cultural Minas Tênis Clube,

Belo Horizonte

2015

. Semana da Fotografia de Belo Horizonte, Centro Cultural 104, Belo Horizonte

.Vértice - Coleção Sérgio Carvalho, Museu dos Correios, Brasília

 

2014

.Duplo Olhar – Coleção Sérgio Carvalho, Paço das Artes, São Paulo

2013

.Algum Lugar, Galeria da Gávea

2012

.Natureza e Transformação. Centro Cultural Usiminas, Ipatinga/MG

.Natureza e Transformação. Palácio das Artes, Belo Horizonte

.Segue-se ver o que quisesse. Palácio das Artes, Belo Horizonte

.Zonas de Densidade e Refração. Festival de Fotografia de Tiradentes

2011

.Geração 00 - A Nova Fotografia Brasileira, SESC Belenzinho, São Paulo

 

Prêmios

2017

.Vencedor Prêmio Conrado Wessel de Arte

2011

.Finalista Prêmio Conrado Wessel de Arte

2010

.Prêmio Mostras de Artistas no Exterior, Fundação Bienal de São Paulo

2005

.Prêmio Usiminas de Artes Visuais, Ipatinga

 

 

 

 

Presença em Coleções de Arte

 

.Coleção Pirelli/MASP, São Paulo, Brasil

.Coleção Gilberto Chateaubriand-MAM, Rio de Janeiro, Brasil

.Coleção Sérgio Carvalho, Brasília, Brasil

.Coleção Joaquim Paiva-MAM, Rio de Janeiro, Brasil

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